Giovanni Brescancini Picchiotti

1.2. Erudungeon

1.2. Erudungeon

Ela.

Após aquele episódio, por cinco anos não a vi.

As memórias que protegi constituíam-se de vultos. Diálogos nossos registraram-se incoerentes. Sua aparência, sacra, guardou-se irrepresentável.

No entanto, querido leitor, não tema por nosso fim.

Deus, através de suas linhas tortas, gravou melhor História.

A meados do último outono tirei breves férias do meu serviço — e, ao não contar para ninguém que saí de férias, pude também fazê-lo do restante dos meus hábitos.

Seguindo minha bússola interior, decidi encontrá-La.

Senti que Ela estaria no Museu do Ipiranga (Museu Paulista, para os íntimos) — local com o qual experimento bastante identidade, porquanto ele é lindo e importante, tanto quanto eu.

Brincadeira.

Em sério, agora digo, lá ocupa um espaço bastante especial em meu coração, ao menos desde meus últimos anos do colegial.

Explico:

Sempre morei (e ainda moro) no bairro do Ipiranga, com algum orgulho disso, dada a nossa presença no primeiro verso do Hino Nacional — qualquer outro bairro, tão rico quanto seja, jamais carregará nosso caráter fundacional.

Entretanto, tão perto quanto morasse do museu homônimo, cuja majestosidade coroa nossa vizinhança, eu cresci sem visitá-lo com frequência.

Parte disso se explica vez que, depois que saí da Escola São José dos Padres de Sion, escoltado por policiais, no Ensino Fundamental I, fui estudar na Vila Alpina e depois na Mooca, só tendo voltado a estudar no meu bairro no final do Ensino Médio para — adivinhem! — buscar o meu Desejo, num dos primeiros atos em que contrariei a vontade dos meus pais!

Àquela época, minha Ambição Maior assumia a forma de x. Garota similar à y em termos de aparência, x adotava perante a vida abordagem bastante distinta de minha.

Não que eu saiba muito sobre isso, falei com ela três vezes.

Fato é que às vezes ela matava aula passeando no Jardim da Independência, e que, na esperança de encontrá-la, lá se tornou um dos meus lugares preferidos para levar minhas “amigas coloridas” — moças com quem eu trocava uns amassos, mas que sabiam da minha paixão pela x e até tentavam me ajudar nesta empreitada.

Portanto, os jardins do museu tornaram-se, nesta distante época (visto que x morreu para mim em 2016), ambiente para se fantasiar, individualmente ou em conjunto.

Este caráter foi reiterado quando, por fortuito nosso, eu e a y deixamos meu coração quebrar em meados de 2019: após alguns meses querendo pular de indefinida ponte, a determinação de correr em círculos por aquele horto heroicamente me abraçou.

Exercícios aeróbicos ajudam com sintomas depressivos.

Em 2020, veio a Pandemia, e eu, de máscara, sozinho ou acompanhado, seguia a frequentar aquele belo quintal, ainda ruminando ou conversando sobre o cataclismo emocional do ano anterior.

Eventualmente, partiram-se as nuvens cinzas[1] e, descolando-se do luto de outrora, fixou-se o Museu Paulista como local que regularmente visito e palco de muitos delírios mais. Notoriamente, em fantasia outra, será ele o palco da gloriosa vitória do Giovannismo.

(…)

Vistos.

Volte-se o foco a Ela.

[Data, local] [Assinatura do Juiz]

(…)

Sendo os arredores do monumento supra descrito tão simbólicos para mim e sendo Ela meu Desejo personificado, é óbvio que ela estaria numa sala detrás daquela janelinha do Museu do Ipiranga cujo meu lado vândalo lamenta não ter invadido quando eu ainda era inimputável.

Assistindo-me também a sorte que acompanha o protagonista de qualquer narrativa padrão, despotencializou-se qualquer receio de violar as regras.

Escalei, assim, aquela pequena janela, a penúltima na face leste da construção.

Com minha estatura, fazê-lo não foi difícil, bastando um pouco de força e de coragem.

Quando conclui a invasão, contudo, deparei-me com uma salinha pequena, sem graça, sem ninguém. Cruzando sua única porta, entrei num amplo salão, todo ornamentado, repleto de pinturas que retratavam a Independência do Brasil.

Como eu estava imerso em nossa conexão transcendental (mesmo que, até o momento, fosse esta imaginária), uma vez confrontado com a ausência de minha Querida e com a opulência daquilo que me cercava, ao revés de render-me ao desespero, apreciei o que havia. Admirei os detalhes das obras e por estas me deixei afetar, em que pese eu não entender nem um pouco de Arte e ser o mais inculto dos pretenciosos autoproclamados eruditos.

Mas, como há limites à minha energia adulta, logo fantasiei que estava prestes a explorar o Castelo de Hyrule em busca de minha Zelda.

E — vejam bem — como Ela é, por definição, perfeita, meu bobo sonho era ordem irrecorrível e de pronto se fazia realidade.

Pois então eu não me sentia sozinho, visto que aquilo era jogo nosso.

No curso de minha exploração, repetia-se em minha mente a simples e assombrosa melodia da trilha de Twilight Princess, conforme vagava eu sozinho por aquele cômodo, buscando alguma pista de para onde seguir.

Ouço um tilintar. Sigo a uma nova sala.

Uma biblioteca, com uma longa mesa e diversas cadeiras. Nenhuma pessoa.

Vejo um livro grande, bastante saltado da prateleira.

Pego-o e abro-o, apenas para deparar-me com páginas vazias.

Não entendi nada.

Pûs-me a andar.

Escolhia livros a esmo e os folheava.

Após um tempo, sem mais nenhum sinal Daquela que eu seguia, passei a me sentir solitário, e com algum medo, o qual não durou nada. Como que em resposta à minha ansiedade, nem cinco segundos depois, ouço uma risada fofinha, claramente feminina (é, eu não estava sozinho).

Gracioso riso vinha doutra porta, que dava num salão central.

Esta câmara, dotada de diversas escadarias, tapetes vermelhos e estátuas em mármore, estava povoada por mais pessoas, mas não para mim, que as ignorava por completo. Aos meus olhos, apenas meu Alvo existia.

Então, eu a vi.

Ao lado de uma das estátuas, imitando sua posição.

— Palhaça! — disse eu, rindo.

— Para você, eu sou. — declarou ela, saltando da pequena elevação em que estava.

Ato contínuo, emaranhamo-nos num abraço, como se um só nos tornássemos, ao que — tal como o terminal de metrô outrora se revelara, em nossa experiência, floresta sombria e misteriosa — nossos arredores atuais metamorfosearam-se em flora magistral.

Assim, mesmo dentro de um ambiente tão racionalmente arquitetado, víamo-nos em contato com o mais primal e rudimentar da experiência humana, em sua vertente mais gloriosa — os poucos raios solares que passavam pela claravoia reluziam como se nossas pupilas preenchessem nossas íris, de tal modo que o chão ao nosso redor brilhava como todo o ouro vaticano.

Nossa riqueza era imaterial, e em constante movimento. Desajeitados, numa “dança” que quase nos rendeu um tombo das escadarias, nosso amor tomou ritmo.

(Parei de escrever aqui.)


[1] Impossível, para mim, escrever essa expressão sem lembrar da composição para piano de Franz Liszt, que carrega esse nome em francês (i.e. nuages gris).