Giovanni Brescancini Picchiotti

1. Paleta de Cores

1. Paleta de Cores

Ciano. Tudo frio, muito frio, embora aquela noite estivesse quente. Ainda que praticamente desnuda, com nada além de um leve minivestido a cobrindo, o gelo também era sentido por ela. Ele sempre esteve presente, em cada segundo de sua existência. Em cada beijo que deu, em cada memória que criou e em toda a sua arte. Ela o conhecia muito bem. Enxergava nele a sua natureza, seu único amigo, o seu real amor.

Esta noite ela passava sozinha, dentro de sua casa. Tal lar era dela, exclusivamente seu. Para uma jovem de vinte e um par de anos, estava para lá de bem-acostumada com a solitude. Sozinha, ela era livre. Era pintora, escritora, crítica de cinema e também dançarina. Expressando-se em cada batida de seu coração, tudo o que entendia como realidade logo se tornava o seu quadro.

Ela não era só uma artista, mas sim a artista, e tudo o que a cercava fora construído sobre sua imagem e semelhança. O universo que cria que tinha dentro de si, por algum meio, havia-se tornado seu mundo exterior. Com certo dinheiro, comprara aquela casa, e, dalguma forma, batia apenas sobre ela a brisa que entrava de seu jardim. Estava a garota externamente serena, porém internamente extasiada.

Acabara de pintar mais um quadro, mais um retrato de um menino de mentira, por quem sentia muito apreço e vontade de mimar. Ela sabe que seria perfeita para ele, e que ele seria perfeito para ela. Hoje foi criado um moreno tão bonito. Ele era alto, com sorriso de príncipe, e muito fofo. Afinal, essa era a aura dela naquele instante. Nossa heroína estava apaixonada, não se afirma que por alguém. E estava carinhosa, não se deduz que com alguém.

Descansara seu pincel quando, de seu ateliê, saiu a saltitar por outros cômodos, com a delicadeza e a sensualidade duma bailarina. Ela era linda. Cabelo loiro escuro e olhar âmbar, sobrancelhas perfeitas em termos de forma e de cuidado, um sorriso doce e olhos grandes. Rosto de adolescente que se misturava surpreendentemente bem com o corpo de uma mulher que desde cedo se cuidava. Ao seu perfil esbelto mesclavam-se bem as delineações de suas panturrilhas e de seu dorso. Era bela, forte, mas sutil.

No seu dançar alegre, entre jetés e ronds de jambe, a princesa do gelo ocupava e trazia um brilho néon ao escuro do restante de seu lar. Aquele casarão que ela tão bem conhecia adquiria todo um novo tom de mistério quando com as luzes apagadas. Nada se via, muito se imaginava, mesmo por quem havia cuidadosamente desenhado cada detalhe de seu projeto. Descontextualizado aquele esplendor, ao escuro da noite, pareceria ambiente apto ao terror.

Não obstante, se a realeza nascera fria luminescência, as sombras capazes de afogá-la sempre a seduziram. Quando criança, no sítio de seus pais, corria sem rumo, até se perder entre as pequenas vegetações. Havia algum misticismo em como o fraco verde das moitas e o brando azul do céu mostravam-se às suas pupilas hiperdilatadas. Tal magia era capaz de tirá-la de si. Era passado, de muitos anos atrás. Um pretérito cuja nostalgia era um buraco, o qual ela jamais quereria preencher.

Concluída a sua rota, uma gargalhada boba chegou ao jardim e sentou-se a cruzar as pernas. Dela e só dela. Uma taça de champanhe aguardava-a, dela e só dela. Logo após isso, saltou à piscina, sem sequer se despir. Aquele frio, que tardaria a secar quando saísse, anestesiá-la-ia de seu próprio tato. Estar entorpecida noutra faculdade que não a sua consciência era-lhe conceitualmente interessante, como cada pequena coisa poder-lhe-ia ser.

Dos seus calafrios, seus pelos ouriçavam e, embora nunca gritasse, dentro de si a explosão de emoções ordenava um escândalo perfeito. Algum garoto depressivo havia-lhe dito que tal sinfonia era a serotonina agindo, pois essa sensação o lembrava de um certo medicamento costurando seu coração após alguém partir. Todavia, tão parecidos quanto homem e mulher fossem, notava-se aí clara diferença entre ambos.

Ela não se lembrava de quaisquer despedidas, o que não implica que nunca as tenha vivido. Especular-se-ia que a sua pessoa carrega um certo bloqueio, preferindo deixar fadar à obscurescência memórias de tais momentos, com aqueles que partiram só restando vivos no amálgama de seus vazios — ao qual ela tão entusiasticamente hoje saltava, de olhos vendados.

Estar por si só, correr aos olhos de ninguém (… de ninguém?), não ter que pensar em nada, mesmo assim contemplar tudo, não lembrar de nada, mas ainda assim reviver cada toque. Tudo o que passara havia se tornado parte dela, e nada lhe fazia se sentir mais viva do que a incompletude. Não sabia o nome do que corria em suas veias, porém sabia o quanto a acolhia.

Esse sentimento era sua nova família, envolvendo-a antes de dormir. Já de pele seca, agora pouco ébria, sentava-se em uma rede, cerrando seus olhos a cochilar. Não sabia que horas acordaria — ou para que acordaria. Ainda eram nove horas da noite, entretanto o sono já vinha a pesar.

Enquanto fechava os olhos, caminhando naquela tênue linha entre sonhos e realidade, alternava de visões dos seus físicos arredores às duma formosa montanha nevada coroada por um vulto que lhe era familiar. Sonhava estar caída após esquiar, futilmente tentando levantar-se, ao que suas mãos afundavam na neve. Surgia em si uma agridoce resignação, conforme seus músculos provavam-se mais fracos do que o necessário para a reerguer.

Lá, parada, começaria a desesperar-se, não soubesse que aquilo era só um sonho. Tentava acordar de vez, no entanto, não alcançaria dito objetivo sem alguma ajuda. Nesses instantes, sua mente corria um pouco mais do que gostaria, e mal podia ver a hora de se livrar dessas amarras. Seriam minutos irritantes, com sua cabeça já cedendo a alguma ruminação sobre seu passado recente.

Tentava levantar-se, tentava girar, tentava gritar. Todavia, sua impotência se estendia a todas essas faculdades. No fim, persistiria tal cenário. Presa entre esses dois mundos. Em ambos, imóvel, independentemente do quanto quisesse explorá-los. Entretanto, para além dos zumbidos, dos pensamentos inconvenientes que não conseguia evitar, voltava-se ela a refletir sobre — justamente — o que seria aquilo que estava a viver.

Antigamente, de seu sono costumava acordar nostálgica e revigorada. Não obstante, houvesse sua vida caminhado ao reconforto, suas horas de sono caíram ao desolamento, passando de doces fantasias de voar e saltar longas escadas a frequentes madrugadas desesperadoras e desconcertantes. Restava um notável asterisco, contudo.

Durante um dos primeiros pesadelos dessa sequência, percebera estar sonhando. Qualquer inferno que a rondasse, o quão ruim quanto fosse, logo mais se encerraria. Plenamente ciente do que acontecia, perguntara-se então se não poderia manipular o universo que a cercava, visto que ele era tão somente parte dela, como um braço ou uma perna.

Desde quando fascinada por esse pressuposto, não tardara para que investisse noites e noites a perambular na internet por fóruns que o investigavam. Através de um deles, conhecera, de forma bem pouco ortodoxa, o único a saber quem residia naquela tão destoante residência — e o único capaz de a transgredir.

Dentre trocar histórias e estórias, cartas sem autores e emoções sem invólucro, o brilho do Sol, a lava fervente, a obsessão sem limites e o vermelho do sangue mancharam outrora tão branca gaze. Sangria que nunca se estancava, sabia por onde irromper sem permissão ou repreensão. Inclusive hoje.

Deitada naquela rede, ainda paralisada, a sonhadora sentia o ardor em sua mente e logo mais não apenas nela. À nossa protagonista raiava o dia em plena madrugada, conforme seus lábios secos molhavam, e sua língua então dançava, iniciando empurrada, porém nada tardando para agregar-se ao ritmo. Erguia-a Grená, com suas cicatrizes, sua força, sua firmeza, sua concretude.

Sequestrada de seu vazio, a geada despertava parte de algo maior, conjunto, para além de seus sonhos e de sua realidade. A paixão escalava intensa conforme o calor penetrava o ambiente. Ela tremia, gemia. Tentava manter-se quieta, mesmo que não houvesse ninguém além deles dois. Via-se num ritual tão intenso, envolta da cabeça aos pés, e era tão sacerdotisa quanto objeto de sacrifício.

Seus instintos a dominavam, mas não somente eles. Preenchida. Temporariamente preenchida. E sorria, como nunca havia sorrido. Já cedia, gritava, e toda a natureza testemunhava seu êxtase! Intenso demais para ser contido. Grande demais para não ser compartilhado. Forte demais para ser esquecido.

Ambos ao chão se deitaram, ao que seu alvo vestido perdia toda a fineza que um dia representara. Ela, também. Suja, por dentro e por fora, gostava tanto de se sentir assim. Apesar disso, havia a culpa. E os sorrisos logo se fechavam em lágrimas. A princípio, um sinal de dor estimulante àquele que tinha tais tendências. Logo mais, entretanto, desígnio de genuína preocupação por parte de seu outrora sádico companheiro.

— O que houve, Beatriz? Por que chora? Está estranha hoje, desde o começo. Estava a ter algum pesadelo quando a encontrei?

Os olhos dela reviraram-se.

— Você sabe muito bem das minhas questões com você. E com… aquilo, no geral. Mas não fico nada surpresa com essa sua ignorância fingida. Não fosse por se fazer de bobo, eu nunca teria começado a me envolver consigo.

— Não sou benquisto aqui?

— Eu não disse isso. E sim, tive um pesadelo. Mais brando que os que costumo ter. Apenas estava caída na neve, sem forças para me recompor.

— Definitivamente não é o tipo de coisa que a deixaria emocionalmente abalada. Até porque essa fraqueza costuma ser bem comum quando sonhamos…

— Sim. Ela é tão comum quanto é desapontante a falta de opções para lidarmos com a maldita — respondeu Beatriz, denotando sua frustração. — Eu esperava ser mais fácil tratar meus sonhos como uma tela em branco. No entanto sempre tenho que começar lidando com as cores já no painel, o quão obscuras ou inconvenientes estas possam ser. Muitas vezes me afobo e acabo acordando sem conseguir fazer nada. Isso quando um grandalhão sem senso de propriedade privada não me desperta de maneiras inadequadas, claro.

— Peço desculpas, Bela Adormecida. Mas você sabe que não tenho culpa quanto às dificuldades que nosso inconsciente apresenta. Desde o começo, disse-lhe que não seria fácil, a despeito de sua persistente teimosia sobre sempre conseguir tudo num estalo de dedos. Quando o assunto é nossos sonhos… explorá-los, quem dirá manipulá-los, tudo depende de uma íngreme curva de aprendizagem. A nossa mente é a parte mais fascinante e infeliz de nós. Jamais se impressione, ou deixe oprimir, pela amargura que esta possa conter. O seu quadro se inicia fosco pois é assim que você se encontra, dentro de si. É realmente difícil lidar com tal bagagem.

— Fala com essa tranquilidade pois não consegue controlar-se nem acordado. Para mim, é desesperador. Meu mundo externo, tudo o que aqui me cerca, se tornou exatamente o que eu quis para mim! Por que é tão difícil, dentro dos meus próprios sonhos, fazer o mesmo? Por que é a minha vida um paraíso, entretanto, noite a noite não consigo romper esse ciclo? Meses tantos tentando quebrá-lo, e tudo o que mudou foi eu passar a ter essa consciência, durante os sonhos, de que estou a sonhar. Porém ainda tenho que viver seja lá o que Ícelo[1]me reservou. Tomar conhecimento de que eu teoricamente poderia controlar essas ilusões a princípio me enchera de esperanças. Sem embargo, decurso o tempo, dita lucidez me resultou somente em frustrações e num perturbador sentimento de incapacidade.

— A realidade machuca, não é mesmo?

— Do que está falando, Gabriel? Já o falei para tomar cuidado com frases que eu possa mal interpretar.

— Exatamente sobre isso — replicou ele, com um entreaberto e leve sorriso. — Essas fantasias de controle. Talvez você sequer note a sua arrogância. Não obstante, essa claramente se denuncia quando mostra pensar que dispõe algo acerca do que digo ou deixo de dizer, ou sobre o que faço ou deixo de fazer. Não apenas eu, porém ninguém, nem nada, curvar-se-á às suas vontades. Quando você se sente incapaz é porque é incapaz, assim como todos nós podemos ser. Irônico é que note isso ao ter um pesadelo dos mais triviais, e não com como foi, e frequentemente tem sido, surpreendida. Onde se refugia sua pretensa onipotência, se em seu próprio lar não é você quem delibera o que ocorre?

Um breve silêncio seguiu. Por algum tempo, ainda deitada, Beatriz pareceu abstrair, ao que seu olhar se encontrava meramente perdido dentre o céu estrelado, sem implicar-se qualquer admiração ao mesmo, dada a sua evidente vacância. Então, tremendo um pouco, notada a sua ebriedade, mesmo cansada levantou-se e, em meio a passos dispersos, ainda que firmes e expressores de poder — como o balbucio dum general a beber vinho em seu ócio, e não de um comum cuja embriaguez denotaria alguma fraqueza moral — pôs-se a responder ao seu amante:

— Se eu não quisesse, você jamais poria seus pés aqui. Você só consegue entrar porque eu quero que consiga. É outro que devaneia sobre controle, nada obstante não o tem. Como já dito, sequer sobre si mesmo e menos ainda quanto a mim.

Em seu exterior, Gabriel ouviu à sua benquista com aparente apatia, mantendo sua expressão firme. No entanto, a quem melhor o conhecesse, sua mudez repentina denunciava que este não se sentira nada indiferente ao escutá-la. Pelo contrário, o âmago desses dizeres — a negação à subordinação, vinda duma alma dócil e aparentemente sob controle — era terreno comum ao prelúdio do maior dos fantasmas de seu passado.

Doía-lhe reconhecer, porém a sua contraparte estava certa. Era um hipócrita, pois nunca deixara de crer que detivesse controle. Poderia duvidar de seu controle acerca de si mesmo, de seus sonhos, ou de sua vida, mas sobre sua parceira essa crença tornara-se velado dogma.

Lamentável, dado o tanto que sofrera, ter aprendido lição tão equivocada. Sempre que soltaram a sua mão, atribuíra a partida a não ter segurado forte o bastante. Pensa que carne não se quebra, apenas se rasga. Ele não se importa com as cicatrizes nos outros — ou ao menos acredita não o fazer — então, fincar-lhes as garras soa a mais efetiva forma de fazer valer o que queira.

Todavia, embora a literalidade da carne não se rompa, pessoas e relacionamentos podem quebrar-se. Ademais, para além de sua pseudo-psicopatia clichê, é notório que empatiza com as cicatrizes, reais ou imaginárias, que venha a causar. Em verdade, sua consciência atua como autoflagelo, sendo mais severa do que qualquer juiz da Terra, mesmo depreciando-se como branda.

Com seu superego o reprimendando, Gabriel sentia-se tomado por uma angústia excruciante. Sua vontade era expô-la, porém havia um limite para os espaços que Beatriz poderia ocupar em sua vida e o quanto dele esta poderia conhecer. Apesar de toda a intimidade entre aqueles dois, nosso herói não se sentia confortável, e cria que nunca mais se sentiria, de pôr em vida certas partes de si.

Portanto seguiu seu silêncio, entendido pela moça como algo entre a aceitação e a preguiça de refutá-la. “Tenho controle de mim, como tenho tudo sob controle!”, a referida pensou, e fez questão de manter essa façada por quanto conseguiria. Por sua inanimidade, seu parceiro compactuou com dito plano, e, pelo tempo que seguiu, não se diria que as duas almas presentes naquele ambiente eram mais do que desconhecidos.

Este último permaneceu um tempo deitado, enquanto ela reingressou em seu lar. Fê-lo sequer acendendo as lâmpadas, uma vez que mais queria andar do que realmente ir a algum lugar. Passou pela cozinha para beber mais um pouco, sem saber exatamente por que o fazia. Então, foi a um de seus quartos, esta noite escolhendo aquele que seria indistinguível dum jardim de inverno, não fosse pela cama e pela penteadeira. Felizmente, havia uma bata esticada sobre essa última, o que a fez se lembrar de trocar as roupas.

Enquanto se vestia, olhando os arredores do quarto-jardim, orgulhou-se ao notar os bonsais alternados com as plantas maiores. Apreciou o grau de detalhamento que se ostentava conforme preparava-se a descansar. Já deitar-se-ia no leito, entre alguns cântaros organizados como peças sobre um piso em mármore que remetia a um tabuleiro axadrezado, quando teve uma ideia.

A partida simulada dispunha um cenário levemente favorável às peças brancas, ainda no meio-jogo, nalgo por demais considerado, visto que a faustosa enjoaria do enxadrismo antes mesmo de cansar-se da jardinagem. Identificando-se com as referidas, via-se vitoriosa ante o “invasor” com quem estava brigada.

Mais importantemente, contudo, para evitar surpresas inconvenientes, Beatriz trancou a porta. Como gostaria de deixar a janela aberta, em virtude do clima e de sua preferência pelo refrescar natural do vento, puxou alguns cactos, parte preferida de sua decoração, para sob essa, definindo um entrave a qualquer tentativa invasiva de seu companheiro.

Eram vasos pesados, cujo esforço de arrastar pouco combinava com o relaxamento que antecede ao sono. Ao movê-los, sentindo breve agitação, questionou-se se realmente queria dormir, já que, caso Gabriel tentasse entrar e ela estivesse a sonhar, perderia uma cena inesquecivelmente engraçada.

Riu um pouco, sozinha, e quis agredir-se por fazê-lo, afinal, aquele era o momento de provar que, caso ela não desejasse, ele não entraria. Se bem que a humilhação dele ferir-se nos cactos talvez serviria mais ao seu ego do que a simples vitória de o convencer a recuar.

Passaram-se umas horas, e esperar para assistir tal desfecho deixou de ser uma opção, na medida em que o sono a tomou, como gradual e instigante neblina, constantemente escurecendo-se.

(…)

Entrementes Gabriel permanecia acordado. Havia ficado um tempo surpreendentemente longo deitado, com seu olhar desprendido, e apenas há pouco havia-se levantado e começado a andar pelo exterior da casa, como que numa viagem interna a si.

Se a Beatriz de Dante[2] o acompanhara aos Céus, a Beatriz de Gabriel parecia ter-lhe levado às trevas, maçante quão era a sensação que a este não cessava experimentar.

Entretanto, ainda que tal ciência não zerasse o seu ressentimento, sabia (ou ao menos começara a considerar como uma hipótese) que, mais correto do que dizer que Beatriz “fizera-o” sentir-se de uma certa forma, seria reconhecer que ele — por sua própria interpretação —, sentiu-se de determinado modo com o que esta dissera.

Era-lhe mais empoderante assumir a responsabilidade para si, embora ainda se sentisse muito castrado quanto ao que realmente lhe importava. Ainda assim, mantinha-se a seguir seu caminho.

Para o bem ou para o mal, o jardim a seu redor era mesmo instigante, ainda mais pelas lembranças que lhe eram suscitadas. Lembranças as quais não tinham nenhuma relação àquela que dormira dentre tramoias em seu quarto. Tampouco deram-se suas recordações naquele espaço em si, mas isso não o impedia de sentir-se a revivenciá-las.

Via-se transposto ao momento no qual a cor verde, dominante entre as vegetações, deixara-lhe de ser fria. A priori, tornara-se quente, como vívida esperança, conquanto, com o virar dos meses, fez-se dalgo entre o frio e o abafado, como um construto fantasioso, fadado ao fracasso, todavia ainda necessário a manter ordem em sua vida. Aquele esverdeado, outrora circundante no acampamento onde conhecera sua portadora, de forma repentina — ainda que mediata o suficiente para adiar sua ciência — transformara-se na luz jade que motivaria o Grande Gatsby[3] ao seu trágico fim.

Constituída em estatura média, de pele pálida, cabelos negros e traços finos, Naomi era a sua luz no píer… nalgum píer, melhor dizendo, pois não se sabia mais onde estava. Nada obstante, Gabriel, durante todos os momentos em que esteve emocionalmente ausente nessa noite, esteve presente junto à referida. Por um segundo sequer, naqueles anos todos, havia ela deixado seu coração — ou melhor, seu coração havia deixado-a, posto que sua amada claramente partira.

Hora esta perseverança manifestava-se como um pensamento leve ou um sonho prazeroso, baseados em cauteloso otimismo, o qual já seria suficientemente irracional caso se pensasse melhor nele. Ainda assim, a negação nunca é plenamente persistente. Ao dar-se conta da (extremamente) provável realidade, surgia um desamparo imenso, e para mantê-lo em cheque, era alimentada a obsessão de quem queria manter sob domínio alguém que não mais conhecia.

Mesmo que fosse outra a sua companhia de hoje, após ouvir a crua verdade da boca de Beatriz, sua mente não saíra do mal digerido desfecho com Naomi, ou de todas as internalidades que este abarcava. Refletira muito — deitado, andandocontudo, qual fosse sua postura, não parecia sair da estaca zero. Em seu caminhar, inclusive chegou a notar sua atual parceira, indiscutivelmente atraente, escondida em seu quarto. Bisbilhotando, viu a pequena armadilha que a protegia, e até sabia ser capaz de vencê-la…, mas não queria fazê-lo.

De fato, carregando o peso de sua recente introspecção, optou por recolher-se. Talvez a adormecida o desejasse em sua companhia, visto que o obstáculo por essa posto era previsivelmente insuficiente. Como a própria dissera, caso ela não o quisesse, Gabriel não conseguiria alcançá-la. Então, presume-se, fosse realmente esse o seu anseio, a astuta moça ter-se-ia prevenido de maneira mais eficaz.

De todo modo, naquele momento, ele não queria deitar-se ao seu lado. Não somente acabara de reviver um passado doloroso, como também havia experimentado a culpa de tentar tomar decisões por sua companheira. Abster-se-ia das rédeas, hoje.

Por consequência, iria embora, aquela noite. Voltando à sua morada num daqueles longos regressos nos quais sua única vontade seria dormir, ali e naquela hora, a despeito dos arredores claramente inadequados. Manter-se acordado era uma obrigação, porém essa não parecia um fardo, remetendo a um ato automático de subsistência.

Sabia ele que não poderia fechar os olhos e cair no sono no meio do nada. Ninguém negaria a disfuncionalidade de sua existência, mas ainda não havia chegado a parar em um hospital por seu comportamento dúbio. Então, automaticamente, seu corpo mantinha-se vigilante, objetivando que essa não fosse sua primeira vez.

O trajeto a percorrer era composto por três trechos: Uma longa caminhada, um trecho ferroviário e mais outra andadura. Tanto Beatriz como Gabriel residiam em trechos afastados do transporte municipal, ainda que por razões distintas. Ela o fazia por prezar por manter sua opulência numa região mais pacata, pouco construída. Já ele morava, com seu pai, em um pequeno apartamento num bairro periférico, um tanto quanto amontoado.

A família deste último não possuía baixa renda, sendo seu progenitor um burocrata de médio escalão, bem-remunerado dado o prestígio do ofício público. Apesar disso, por apego às suas origens, este de onde veio permanecia, e a seu filho, insatisfeito quanto estivesse, restava aceitar, dado o atraso deste para conquistar as suas próprias economias.

Atento a seu caminho, Gabriel não tardou tanto a chegar na estação de trem. Não havia fila alguma, por conseguinte logo comprou seu bilhete para o próximo ferroviário. Este sairia às duas horas, tendo sido alcançada a plataforma com alguma antecedência.

 Uma vez dentro de seus vagões, notou que estes eram bastante iluminados, a um ponto que seria previsivelmente incômodo a qualquer um que, provavelmente sonolento, embarcasse num trem àquele horário. Pensando no longo percurso adiante, seu sono tinha passado, porém isso não impedia que se irritasse com a forte luz. Do mesmo modo que a velocidade do veículo, embora dentro do normal, o molestava.

Havia amaldiçoado a toda a criação, vitimizando-se por todas as exterioridades que outrora lhe seriam indiferentes, quando chegou à sua estação, a penúltima da linha. Saindo do trem, logo após uma moça destrambelhada, viu seu estado de alerta finalmente lhe servindo, tão logo notou algo fora do ordinário.

Nervoso quanto estava, temia ser um delírio, porém jurava ter visto um rosto conhecido, que sentado permanecia. Não identificava exatamente quem seria aquele rapaz, baixo, magro e oriental. Contudo, vê-lo trazia à sua cabeça flashes daqueles tão intensos meses no acampamento, os quais tanto o marcaram.

“O acampamento. Naomi. Cinco anos atrás.”

Queria segui-lo.

Dada a prevalência daquele período nas recentes ponderações sobre sua paixão, existia razão extra para que tal especulação fosse relevada como mera paranoia, mas ele não cedeu à lógica. Sem embargo, antes de decidir o que fazer, o obsessivo garoto já havia saído do trem, e as portas se fechado. Em um momento de desesperança, anotou em seu celular presentes data e horário, para que pudesse tentar repetir a coincidência daquela noite noutro dia.

No entanto, via-se numa daquelas bifurcações, em que se pode escolher prosseguir no tédio da rotina ou tentar — ainda quando com remotíssimas chances de sucesso — seguir um desvio significativo, cujo impacto sempre é insabido. Nesse contexto, optou (como sempre buscara optar), pelo segundo caminho.

Afinal, era previsível o destino daquele cujo semblante despertara inquietude, porquanto aqueles trilhos só seguiam a mais uma estação. Por muito que para vir o próximo trem — o último antes da breve janela de tempo reservada à manutenção daquela estrutura — ainda demorariam trinta minutos, o risco duma empreitada sem retornos mostrava-se digno de ser tomado. Mesmo se seu alvo já tivesse partido e não conseguisse encontrá-lo, sentir-se-ia alguma adrenalina naquela aventura e isso bastava! De bônus, visitar-se-ia outra parte da cidade, o que tendia a ser memorável.

Então, naquela meia-hora sem muito o que fazer, nosso cavalheiro percebeu, um pouco distante, a sua única companhia: uma garota, cujos cabelos eram ondulados, num tom que, conquanto louro, ao ruivo tendia. Ela era baixa, de corpo comum.

Vestida em jeans e com uma blusa que beirava a ser fluorescente, segurava uma garrafa de cerveja na mão, a qual não saltaria aos olhos de ninguém naquela hora e local. Entretanto, outro fato era inignorável: nosso observador não tardou a se dar conta de que ela havia descido do trem junto com ele e engajado no mesmo percurso absurdo, saindo daquela linha para logo a ela voltar, perdendo vários minutos por algo que não se explica.

Fisicamente, a descrita não chamaria tanta atenção, mas Gabriel atiçava-se ao pensar que talvez ela mantivesse uma peripécia análoga à sua. Quem sabe estivesse seguindo o mesmo rapaz que ele, ou até mesmo a segui-lo, para um ainda maior deleite seu.

“Eu sempre quis uma stalker”, pensou, com um sorriso bobo o qual não conseguia controlar, não importa o quanto tentasse. Então, repentinamente avoado, vislumbrou a recém-introduzida cumprindo os papéis a cujo sonho de preenchimento este intermitentemente resignara, devido às suas pregressas experiências.

Conquanto decidido de que Naomi seria boa o bastante, ele sabia que, mesmo no mais otimista dos desfechos à sua caçada, a bela japonesa não supriria certos anseios seus, e dava-se por satisfeito com tais ausências. Todavia não se concluía disso que jamais cogitasse outra garota a ser a meiga ninfa doentiamente obcecada, que por ele tanto se interessa, ao ponto que cada aspecto seu trata como objeto digno de estudo. De maneira que ele fosse tratado por si só como uma ciência, merecedora de suas diversas disciplinas e inquirições.

Poderia ser essa moça quem tal função performasse.

Impressionante como foi rápido para que aquela mulher, que há pouco não parecia particularmente interessante, agora fosse idealizada como uma aura turbulenta, amarela e vibrante, que era desejada o perseguindo e consumindo. Questionava-se ele se essa rapidez toda era carência, desespero, ou se, na verdade, era comum ao humano moderno se distrair da vida mundana com essas empolgações sem fundamento.

Ou, melhor dizendo… será que essa era sem fundamento? Conforme o tempo passava, a coabitante daquele momento olhava para todos os lugares, menos à sua presença. Não importa o quanto a fixasse ou o quanto tentasse fazer algum ruído que desviasse a sua atenção — pisando forte ou suspirando alto —, os olhares nunca se cruzavam. Entre as hipóteses de desinteresse e de ativa evasão, a curiosidade alimentava-se.

Ao passo que o próximo trem chegava, o foco de nosso herói era perdido, e o ritmo de sua cognição desacelerava-se.

Se frequentemente a ansiedade que temos parece desmedida, naquele instante a calmaria o era. Embora desapercebido, o ar do ambiente carregava um estranho clima de inquietação e de suspense.

Ao que o trem de fato parou, nosso homem tardou um pouco a reagir. Logo em seguida, a voz feminina, já ingressa no vagão, invocou-o:

— Gabriel?

Ao ouvi-la, travou. O rouco timbre auscultado de certo rompia com qualquer expectativa acerca da tonalidade de sua interlocutora. Mais do que isso, contudo, rompia com suas expectativas a própria ocorrência do chamamento, que logo mais degenerou-se, repetindo-se em tom de neurótica impaciência:

— Gabriel? Você é surdo, Gabriel?

Palavras estas últimas mal diferenciavam-se, já que se pronunciaram junto ao quebrar violento da garrafa que a moça tinha em mãos. Lançara-a ao chão, furiosa, e os cacos cortaram-na, causando-lhe a sangria e o choro. Deste desenrolar de eventos, os únicos fatores dotados de aparente sentido.

fim do capítulo primeiro


[1] Na mitologia grega, Ícelo, assim como os seus irmãos Morfeu e Fântaso, são oneiros, os quais correspondem à personificação dos sonhos. Dentro desses, Morfeu representaria as pessoas; Fântaso, os objetos; Ícelo, os pesadelos.

[2] Em sua Divina Comédia, poema épico que melhor captura o imaginário medieval, Dante Alighieri percorre o inferno, o purgatório, e o paraíso. Ao primeiro, acompanha-o Virgílio, autor romano da Eneida. Já nos últimos, quem faz seu guia é a musa e eterna amada do autor, também chamada Beatriz.

[3] O romance homônimo de F. Scott Fitzgerald, descreve a busca do protagonista por sua amada, Daisy, de quem se separou durante a Primeira Guerra Mundial. Após conquistar um grande patrimônio, Gatsby decide buscá-la, comprando uma mansão em frente à casa desta. Separados por um lago, com Daisy casada a outro homem, Gatsby a sente através da luz verde no outro lado do píer — a qual, noite após noite, parece buscar.