Como que num sonho, repentinamente percebeu-se ela existindo, sem remanescências ou questionamentos acerca de como chegara àquele lugar.
Por seu entorno, vibravam-se músicas instrumentais, misteriosas e doces, cujo teor era de ambientá-la àquele novo mundo, artificial — sem, contudo, oprimi-la.
Ao revés, as telas que a cercavam preenchendo todas as paredes, sempre a repetir a mesma tonalidade, almejavam causar nela sensações de acolhimento e familiaridade, em contraste à suposta estranheza da situação.
Alçada, pois, havia ela sido a uma posição quase divina, demonstrada na finez e na simplicidade do alvo vestido que tocava sua pele e na complitude do mundo que era seu — detinha ele até seu próprio céu nublado, simulado pelos monitores onipresentes, que também imitavam, por claro, um feixe de luz intenso a irrompê-lo, já que o Sol mais acolhe quando vence a chuva.
Com aquele brilho como guia, pôde ela seguir, lenta e confortavelmente, por referido ambiente, até que se deparou com uma mesa posta ao seu desjejum. Casando com seu vestido, a louça de porcelana branca em si não trazia mais ornamentos do que o necessário. Entretanto, a refeição era farta e possuía seus ingredientes ao melhor gosto daquela que se alimentava.
Só de ver a mesa, ela ficou feliz.
Sentou-se.
Pensou um pouco antes de comer.
Sobre o que, será?
Surreal e onírica, aquela experiência seria incapaz de suscitar qualquer rememoração, qualquer dúvida do que já foi, qualquer curiosidade sobre o que mais há.
Aquela garota era pois a inocência, sem culpa ou passado. Era a sua própria essência, pois bastava em si. Melhor posto, ela era.
E resta a dúvida: No que pensa quem não foi corrompido por traumas ou preocupações?
Creio que em algo bom, pois um doce sorriso antecedeu ao levantar do garfo, para pegar um único tomate cereja e calmamente apreciá-lo.
(…)
Constituía-se uma cena perfeita: aquela mulher, tão pequena e magrinha, dona do sorriso mais doce que esse mundo já viu, merecidamente livre de quaisquer preocupações e a apreciar, aquele doce e ácido tomatinho, enquanto experimentava una graça espiritual.
Era o seu renascimento.

