Poucos são os registros humanos anteriores à escrita que mantemos guardados. Muitos destes, contudo, situam-se na Caverna de Lascaux.
Descoberta no século passado por quatro adolescentes que curiosamente optaram por protegê-la por dias até a chegada das autoridades, ela contém mais de seiscentas pinturas parietais. Parte destas são representações de animais, possivelmente relacionadas a superstições de caça. Mais interessantes ao meu ver, contudo, são as negativas de mãos encontradas na parede da gruta.
Embora se possa, academicamente, construir um sentido maior, lógico, coerente com o que se sabe sobre a Arte, acerca delas, mais instigante é o fato de que essas pinturas rupestres muito lembram uma das primeiras coisas que uma criança na pré-escola faria com seus materiais de pintar.
Pois bem. Em certo sentido, a pré-história, com suas limitações ao registro de informações, pode nos passar uma ideia única do que um humano adulto faria, se posto no mundo sem um ideário que o preenchesse. Tal qual uma criança contemporânea consegue fazer antes de ser tomada pela ideologia, ele exploraria.
Voltemos à nossa protagonista.
Findo seu tomatinho, ela se levantou, atenta, mental e afetivamente, aos estímulos do universo que a cercava. Nada reduzindo a pureza de sua maternal imagem, ela era de carne. Portanto, era dotada de sentimentos e desejos. Também, de impulsos, ainda que livres das neuroses dos corrompidos.
Aproximou-se de uma das telas da parede, das quais pôde identificar os quadradinhos que as compunham, os pixels. Tocou-os com os dedos, sem lhes infligir força. Pese não haver nenhuma pressão real, sentiu as cores com seu tato.
Arrepiou-se.
Voltou a seguir.
Vasto o ambiente em que alocada, após alguns minutos de caminhada, ela viu no horizonte que uma parte deste refletia as luzes dos monitores, oscilando em ondas. Era uma piscina.
Passo, após passo, após passo.
Um pé, depois o outro. Então, uma mão, em formato de conchinha.
A água estava morna e, como de se esperar, aconchegante.
(Parei de escrever aqui.)

