Análoga ao anjo caído, que pela primeira vez distante do Paraíso despertara junto a seu terço de conspiradores[1], Beatriz dolorosamente abria os olhos em trevas.
Passada a névoa preta que a envolvera, em sua própria imaginação despertou-se ela em brancas vestes, num lúgubre cômodo, no chão voltada à varanda, esta de todo escancarada.
No céu via-se muito mais astros do que é comum, como se a Terra vários satélites naturais tivesse. Diversas luas, todas em quarto crescente e engrandecidas em relação à tradicional apresentação de Lucina[2], impediam que o breu experimentado fosse pleno. Não se conseguia contá-las, aparentemente infinitas que elas eram.
De outra sorte, havia objeto o qual uno brilhava. Esplendorosa em sua aparência, infernal em sua superfície, à Estrela D’alva, à Vênus, a Lúcifer orbitavam todas as atenções: a da humana e a dos orbes que a seu horizonte preenchiam.
Tentada, posta em movimento como a maquinaria de seus sonhos ordenara, Beatriz aproximava-se em voo ao planeta ardente. Repetindo Ícaro — que no conto clássico demais ao Sol se achegara, ao estopim que a suas asas dissolveu —, ambiciosa enfrentou mesma desventura, por sorte sem equivalente fatal desfecho.
Caída numa das luas, a qual repentinamente se escurecera, viu a deusa romana do amor metamorfosear-se em gente, numa forma imprevistamente familiar. Tal ser era-lhe reconhecível, não somente no sentido de carregar energia demasiadamente parecida com a de si própria, como também o era na literalidade do termo.
Cria, firmemente, já havê-lo visto. Talvez não no mundo físico, mas noutro lugar ainda mais real, no qual mais significativo era o tempo que passava, assim como mais aceleradas eram as taquicardias que lhe serviam de trilha sonora.
De alas derretidas e, uma vez mais, incapaz de reerguer-se por própria conta, a orgulhosa chegou a esboçar uma rejeição à ajuda que a entidade lhe oferecera. Todavia, as suas arrogância e vaidade foram superadas pelas de dita figura, que, debochada, inquiriu-lhe:
— Quão esperado era seu fracasso? Sequer o confronta…
E em breve sequência, sem sequer dar tempo para que a sua interlocutora verbalizasse uma resposta, diante de mero olhar perplexo, não satisfeita complementou:
— É bonita demais para servir de reles tapete. Ainda assim, se possui a aparência de um anjo, parece estimar-se tanto quanto uma meretriz. Quem é o rufião a quem se deve esse ímpeto em se humilhar e essa hesitação em se recuperar?
— Cale-se! Você não sabe de nada! — Respondeu a mortal, com uma voracidade quase incompatível à falta de ar que experimentava.
— Sei sim. Na verdade, eu sei muito — prosseguiu a divindade, abrindo um sorriso. — Ainda assim, peço-lhe perdão. Não sei o quão verdadeiramente peço, dado o meu tom de risada, porém pelo menos consigo pronunciar essas três palavras. Já você, questiono-me se possuiria tal capacidade. Talvez, em sua boca suja, elas não caibam.
— Pergunto-me donde surgiu esse anseio repentino por dar-me lições de moral. Não queria me ajudar? Não estou mais a reclamar. Está aqui sua oportunidade. Dê-me a mão. Aceito qualquer ajuda se esta faz-se necessária para eu poder parar de ouvi-la.
— Sua rispidez é espantosa. Sem embargo, grosseria nenhuma altera que não pode fugir de si mesma.
Objetar dita frase, interrogando em que se embasava alegação tão contundente, mister far-se-ia. Todavia, antes da réplica ser possível, Beatriz, ainda deitada, sentiu um repentino frio em ambos busto e abdômen. Deveras, descrevê-lo como frio seria eufemístico. Parecia que sua pele em direto tocava com uma superfície instantaneamente congelada.
Não só parecia.
Logo ao abaixar a cabeça notou…
Estava nua.
“Mas o que?”, questionou-se Beatriz.
Ao breve espanto sucedeu-se uma tranquilidade. Felizmente, sendo a nudez indesejada enredo demasiado recorrente em nossos sonhos, expôs-se como óbvio que era de um deles que aquela experiência se tratava.
Assim, explicou-se o sumiço de suas roupas, dado o quão comum era ter pesadelos acerca de, em público, despida estar. Também se fez compreensível a questionável física a determinar temperatura e luminosidade daquele cenário.
Então, repentinamente, o diálogo que tinha com a materialização da altivez explanava-se em bastante sentido, mesmo que as implicações quanto ao estado de seu amor-próprio fossem pouco agradáveis… Tantas injúrias partindo dum lugar dentro de alguém que supostamente se amaria tanto.
Surpreendentemente, contudo, conquanto entendendo a situação, a outrora prepotente garota rosara-se tímida ante suas vergonhas expostas — como se realmente houvesse, face a si, sujeito verdadeiramente independente.
Todavia, antes de agir ou tentar sumir, ainda que se mantendo tensionada, ponderou ela a respeito de como melhor explorar aquela pseudorrelação social — aquele monólogo alegórico desconcertante, porém acolhedor.
Em cognição sumária, dominadores, cada qual dos impropérios a ela dirigidos nada mais era do que sua própria verdade, expressa na forma que lhe soava perfeita. A mais idealizada de suas versões jamais trocaria palavras ou cairia em confusões.
E, submissa, reverenciava-a tanto Beatriz, que ardia em si luxúria inconsumável, posto que reprimida por seu próprio temor à entidade. Restava, então, somente o efeito daquelas debochadas palavras como determinantes de sua pessoa e valor.
“Quem sou eu?”, questionou a protagonista, em fala que flertava com ser um pensamento.
Foi assim que, determinada a aprender algo com aquela experiência, a garota caída, embora afoita, decidiu pôr em voz sua primeira pergunta àquela que também era si.
Aprioristicamente ignorada, lidando com o silêncio, presenciou então o seu ambiente alterar-se por completo.
Desapegando-se de qualquer causalidade, o espaço que a cercava transformou-se numa floresta. Ou, talvez, em mais do que isso.
Retrospectando o progresso da humanidade, Beatriz fora da astronomia ao Éden. À esquerda do tríptico aberto[3], sua nueza não mais sordidez representava. O pecado emergente escondia-se nas pedras e nas fontes d’água, até evoluir-se à vida.
Ao redor da heroína não se enxergava nada, que não a selva em todos os seus detalhes.
Via-se tanto a vida como a matéria inorgânica em sua eterna luta. A umidez das folhas sobrevivendo em meio a um dia acalorado, e um besouro a lutar contra o peso que carregava.
Então, sorrateira, a quadrúpede serpente, ainda não condenada a para sempre rastejar, picou-a!
— Vadia! — Exclamou a vítima, prontamente reconhecendo quem era a cobra a mordê-la.
— Respondi a sua pergunta? — Dentre risos questionou a víbora, que não mais animal era, transmutando-se novamente à sua belíssima forma humana. E, próxima à derrubada, procedeu, expondo a seriedade que antes o seu humor escondera:
— Se sou vadia, e somos ambas uma só, o que você é?
Pisando em seu rosto — a deleitar-se como um torturador cujo ágape[4] a muito se perdeu — cuspiu na face da humilhada. Então, em aparente contradição, tocou no rosto da vulnerável, como que o trazendo para si e expressando algum apreço:
— Não há nada de errado em se ser como se é. Só não se faça de inocente. Não faça perguntas redundantes, não encene um papel que não é o seu. O poder material pode te iludir sobre quem você é. Dentro, nada disso importa.
E, com um sorriso à ponta dos lábios, elaborou:
— Fácil é enganar-se com a sua grande casa, com toda a sua ostentação. Mesmo assim, cá está você, no único ambiente em que seu dinheiro nada nem ninguém compra. Aqui, esse é o subalterno papel que desempenha.
Perplexa com a peça que se desenhava frente aos seus olhos e se tocava perante os seus ouvidos, sopesou a oprimida se não era esse o momento de prestar alguma resistência.
Seu corpo estava fraco, sua mente embriagada. Os hormônios e as emoções, contudo, o quanto de seu discernimento recolhessem, em bravura a agregavam.
Contrapondo suas vontades, contudo (não escrevi mais a partir daqui).
[1] Segundo uma das mais prevalentes interpretações cristãs do Livro de Isaías, Lúcifer, outrora um querubim, haver-se-ia tornado o demônio quando, cheio de orgulho e vaidade por seu prestígio e hierarquia, conspirara com outra Deus. Foi derrotado, levando a terça parte dos anjos consigo.
[2] A nossa Lua.
[3] Referência à obra “O Jardim das Delícias Terrenas” de Hierymus Bosch (também conhecido como Bosco), a qual consiste em um tríptico cujos três painéis representam o Eden (onde o pecado começa a tomar forma), os prazeres carnais extremados e o inferno, respectivamente.
[4] Termo grego para o amor, amplamente usado com o intuito de descrever o amor de Deus pelo homem, o amor do homem por deus e, por extensão, o amor do homem pelo mundo e seus semelhantes.

