Giovanni Brescancini Picchiotti

Crença: a Arquitetura do Real

Crença: a Arquitetura do Real

Crer é respirar junto com o mundo.
A cada gesto em que afirmamos um sentido, o real se expande como se nos escutasse.

90,7% dos brasileiros possuem religião, ou creem nalgum tipo de espiritualidade. Às vezes, as crenças se dão em aderência plena a uma denominação; tantas mais outras, contudo, advém do sincretismo. Se há por um lado a fé neopentecostal, por outro tem-se majoritária a fé católica, por vezes com aderência a conceitos de espiritualidade, seja kardecista, ou doutras linguagens de energética, que flertam com escolas orientais: o budismo, o tantra, a yoga.

Meu objetivo com este artigo é fazer uma defesa destas fés como legítimas constituintes objetivas da dimensão valorativo-performativa da realidade: não como “mecanismos de coesão social” ou de “simbolização pessoal”, como uma leitura acadêmica secular faria, mas como Verdade em si.

Inicio por dizer que não escrevo este artigo por razões metafísicas abstratas, e sim por uma dinâmica do mundo real que me chama atenção.

Explico: é extremamente perceptível um desencontro entre o que o brasileiro médio pensa e como o Brasil funciona, e isso não vale só para esta nação. Mais do que isso, não se trata apenas de leis não cumpridas (como se o ordenamento jurídico representasse o brasileiro e a sua aplicação fosse falha), mas sim de que as próprias leis e leituras jurisprudenciais vão na contramão do que pensam João e Maria.

Deixo claro: só mencionei esta diferença entre a opinião da maioria e o resultado de nosso processo político. Não disse se ela é boa ou ruim.

Mas, da curiosidade que este fato gera, brevemente digrido por suas causas: eleitos pelo povo ou não, os constituintes de 1988 lá chegaram não pela voz do povo operando sobre um vácuo, mas sobre o resultado de dinâmicas internas de poder (que possibilitaram a alguns se candidatarem, a outros não; a alguns terem mais recursos à sua campanha, outros menos). E não só. Eles também chegaram lá sendo pessoas moldadas pelo espírito de certas instituições, cada qual fruto de campo de forças.

Todas essas questões dissociam, muito, aquilo que se deliberou em 1988 e tudo o que de lá decorreu, do que pensam João e Maria, cuja voz sempre é ouvida condicionalmente e em campos limitados.

Há, é claro, uma narrativa que legitima (não em sentido moral, de “eu, Giovanni, concordo com isso”, mas em sentido factual, “capaz de gerar efeitos no mundo”) este sistema o suficiente para que consiga atuar em sua própria defesa, reinventar-se, manter-se. Há um argumentário em prol do papel contramajoritário do Poder Judiciário, mas este tecer, enquanto elaborado em milhares de páginas da teoria, não emana da razão, e sim de uma escolha prévia à razão, que quem fez não foi nem o povo brasileiro, nem o cidadão universal: foi formulado por acadêmicos de Direito, ouvidos pela Exceção schmittiana daquela ruptura.

Do plano institucional ao cotidiano, essa dissociação transborda à experiência de cada um de nós.

Para costurar tudo, torno a falar de religião.

Embora o Estado seja laico, por vezes ele me parece ateu. Não só ele, mas muitas instituições. Como se houvesse, no subtexto de um julgamento, da narração de uma reportagem, de um artigo científico, ou o que seja, um subtexto: “Deus (e/ou a sua espiritualidade) não existem”. Descreve-se tudo em termos da matéria, do que se palpa, do que se mede, até mesmo o seu processo de crer em algo é biologizado.

A ironia é que muita coisa não existe como algo que se mede, a começar pelos valores que não ressoam com aquilo que pensa o povo mas que sobre ele lhe são empurrados, com o peso da culpa que advém da adoção de rótulos estigmatizantes. Dada a assimetria de poder entre quem “dita” o certo e o errado e quem escuta, é como se o brasileiro médio tivesse de, diariamente, ouvir que é “louco” (se crê no que não existe), “errado”, e ainda manter sua sanidade no dia-a-dia a trabalhar e produzir.

Agravante: esta culpa sequer advém de única voz. Porque a culpa das novas ideologias não substitui às das antigas, ao revés, a elas se soma. E as redes sociais são um amplificador de vozes a que nós somos expostos. Paradoxalmente, enquanto se hipertrofia o conceito de “autonomia” para defender um “direito a não ser afetado” pelo outro, por outro lado, nossa macroestrutura estende a interação entre subjetividades de tal modo que nenhuma se estabiliza.

Nada obstante alguns denominarem essa geração de “narcisista”, possivelmente jamais houve outra em que o “eu” fosse mais fraco do que hoje é.

Talvez, justamente por isso, nos preocupamos tanto com a própria imagem.

De toda sorte, sem prejuízo do que já desenvolveram Foucault e Deleuze e Guattari, o que reputo mais grave é que é incomum a correta percepção da extensão da dimensão valorativo-performativa da realidade. Existe uma dimensão física, com matéria e energia, concretos e mensuráveis. Mas, enquanto infinita, em escala literal, essa dimensão é ínfima como componente da nossa linguagem e da nossa subjetividade. Nossa percepção do físico-real é inerentemente lacunosa, e toda a nossa construção de sentido é interpretativa. Ademais, desde a antiguidade, o ser humano fala tanto quanto (ou mais) sobre “a beleza, a bondade, a ética” do que sobre “o braço, a casa, o esquilo”.

Toda a operação sobre essa camada abstrata, e muito da operação sobre a base concreta, dá-se por atribuições valorativas. Como exemplo, a ideia da autonomia do ser humano (Kant) não encontra um substrato fático. Nietzsche já identificava as dinâmicas de poder na Genealogia da Moral, os pós-estruturalistas atacam até a ideia de que o “Senhor” de fato contém algum poder (porquanto o poder opera em fluxo arrizomático), e isso se sustenta pela neurociência, que mostra a interinfluência e o nosso inconsciente operando antes do consciente em muitas decisões. Ainda assim, esse pressuposto de autonomia é tratado como fato na aplicação de muitas ciências (como a psicologia normativa), no que concerne às suas prescrições.

Não existe problema em performar um ato de decisão para conseguir viver num mundo arrizomático sem se dissolver no caos.

Eu o faço, ao definir, arbitrariamente, em mim, o evento que deixa de ser efeito do externo, e passa a ser a causa paradigma do que o cerca. Inclusive, recomendo a todos esse ato de auto-excepcionalismo.

Prejudicial é performar o ato de decisão de inconscientemente, ou terceirizá-lo ou fazê-lo sem verdade interna.

Por querer se defender frente a um “tribunal da razão objetiva”, o humano médio passa sua vida preparando os melhores argumentos para um debate que não existe, enquanto também é humilhado, entediado e desrespeitado em um jogo que não percebe estar jogando.

Mas é possível abandonar essa arena e escolher outro jogo, mais real.

A fé, institucional ou não, desde que verdadeira — e fé não admite relativização ou contraprova, pois, acaso o fizesse, não seria fé — é um antídoto a isso. É um antídoto a esse zumbido que nos despotencializa e nos faz questionar a nossa própria perspectiva, enquanto operado de cima para baixo. E eu defendo que deva ser respeitada e tida por fonte legítima de valores, não escanteada do debate político-acadêmico.

Mais do que construtora de uma das dimensões da realidade presente, a fé é construtora de todas as dimensões do futuro. Não porque o impossível se curva à razão, mas porque a fé é a própria respiração de Deus em nós: o sopro que faz o impossível se tornar inevitável.