Giovanni Brescancini Picchiotti

Eu não erro.

Eu não erro.

Outrora, costumava eu, enquanto fazendo trabalho repetitivo de cartório, que não muito me requeria intelectualmente, ouvir podcasts. Meus preferidos eram o História FM e alguns de seus correlatos.

Pois então, lembro-me dum episódio que falava sobre história cultural. Em tal capítulo, versava-se sobre a dificuldade de, enquanto cidadãos da contemporaneidade, entendermos a mentalidade por trás de decisões tomadas por indivíduos doutras épocas.

Nele, o professor convidado, citou uma anedota (a qual, adianto, não sei se constitui fato histórico):

Nos tempos do Raj Britânico, os representantes desse império na Índia teriam sabido da vinda de um mercante, o qual eles confundiram com um embaixador. Imaginando a vinda do embaixador, e não de um simples mercante, eles prepararam uma grande festa. O que surpreende é que, ao saberem do erro, com dias de antecedência, optaram por manter a festa, e tratar tal mercante como se fosse o embaixador.

Qual a razão para tal?

Tal qual eu, também disseram: “Nós não erramos.”

Esta construção me chama a atenção, não por ela em si, mas pelo tratamento que recebeu do professor convidado. Chamou-a ele de “irracional”. Eu questiono esta afirmação e a faço com um ad hominem o qual, excepcionalmente, não constitui falácia:

Os “irracionais” do “Nós não erramos” dominavam metade do mundo.

Os “racionais” da contemporaneidade conseguem ter mortandade de guerra dentro de suas fronteiras, mesmo em tempos de paz.

Por óbvio, não tenho qualquer nostalgia do imperialismo, até porque, brasileiro, eu estaria dentre os oprimidos. O ponto não é esse, mas sim o quão pretenciosa é a crença na racionalidade do modo contemporâneo-ocidental de se pensar.

O que se dita “loucura” muitas vezes é pensamento criativo com efeitos de formação de realidade.

O que se chama de “realidade” tantas vezes é adoção de uma ficção eternizante sobre um estado mutável.

Não existe razão desorientada por valor ou finalidade; e o modo de pensar dos britânicos atingia o seu fim: a prevalência de suas narrativas. Nosso modo de pensar, em contraponto, atinge o quê?

Regimos-nos por muitos valores abstratos, construídos sobre consecutivas camadas de abstração que não nos foram explicadas, e no geral, carecemos seja da capacidade cognitiva, ou da coragem afetiva, de as perceber. Então vivemos a repetir narrativas que não são nossas e a adotar caminhos, seja em nossa vida privada, ou nas ações públicas, que nos fecham em ciclos de alienação.

Quem concorda com o mundo como ele é hoje?

Quem persegue o que realmente Deseja em sua vida?

E se não vivemos o que Desejamos e não construímos uma realidade que nos agrade, vivemos pelo quê, então? Pelo produto de milênios de confusos desenvolvimentos filosófico-político-culturais?

E não há quem ganhe com isso?

Se não vivemos por nós, vivemos por quem, então?

Eu não paro aqui!

Há um ditado de que todo problema complexo tem uma solução simples e errada.

Eu renovo esse paradigma: quase todo problema supostamente complexo tem uma solução bastante simples e completamente eficaz, a qual se nega por uma série de premissas interpretativas da realidade que não existem enquanto fatos físicos, mas como meras ficções valorativas, as quais, muito bem, poderiam ser ignoradas, várias sem vezes sem ônus prático algum.

E falando em ficções, gostaria de comentar como, no mais das vezes, somos guiados por um campo invisível.

Desenvolvo:

Você já se atentou a quando ou por que você desvia o olhar? A quem o seu corpo busca, inconscientemente, enquanto você está em grupo? O quanto você, mesmo sozinho, se contrai, se aperta, se fecha, enquanto está nervoso? Ou então acelera, se expande, desesperado, desengonçado, traindo a si?

Ou nunca parou para se atentar em você?

E, por consectário, nunca parou para reparar em quem te cerca? No que cada corpo diz. Em cada ação que age sobre um campo, mas ao mesmo tempo se molda a partir dele; que também se dita pelas vozes dos outros que ficam muitas vezes enraizadas na cabeça?

Talvez porque você está muito preocupado com o julgamento de algum Tribunal Invisível sobre o quanto você vale ou alguma besteira do gênero. Então não repara no que acontece.

Eu sei…

Não é nenhuma novidade que a ruminação ansiosa nos distancia da experiência presente, e que o que eu falo aqui pode parecer flertar com programação neurolinguística. Mas o que trago é mais complexo do que isso.

Porque eu não estou dando dicas operacionais. Não estou citando regras com base em heurísticas, que não se aplicam bem a casos que fogem do padrão. E tampouco estou enfiando moralismo enrustido, te prescrevendo uma ideologia de renúncia que trata como crime o Desejo, a projeção, a fantasia, como se você tivesse que ser uma pluma passiva que trata a realidade como algo posto e imutável por sua ação.

Eu estou descrevendo abstratamente o que ocorre. E isso nunca vi, por quem quer que não fosse eu.

Porque, qual a questão de fundo: de tal forma como no seu ideário você se submete a valores que você nem entende ou sabe de onde vem, no seu comportamento você se molda por estas mesmas forças; e mesmo quando alguém te busca “emancipar”, ao falar de “cura” ou o que seja, não mais do que se troca uma prescrição que você não entende por outra.

Aliás, até a interpretação que terapeuticamente se prescreve sobre o comportamento de outrém é deliberadamente apassivadora e autoalientante: como se a ofensividade de qualquer conduta que lhe aflige fosse produto não da realidade objetiva, mas de sua subjetividade delirante egoísta; ou que o outro só pudesse agir de forma lesiva por autoproteção ou desconforto, como se não pudesse haver cinismo entre sorrisos “educados” e lapsos de choro ou vitimização em momentos convenientes.

E nada disso sequer é errado, sabe?

É encantador ver alguém que realmente existe.

E não pelo seu diploma, pela sua aparência ou pela sua imagem nas redes sociais; pelo que transparece nos oscilares da sua voz e no seu jeitinho de respirar.

No que… não muda.

Ao que eu tenho olfato e pelo que eu moveria montanhas, esforço e riscos comigo.

Eu não erro.

(…)

Me desculpem. (Não tenho pelo que me desculpar.)

Torno a falar de forma direcionada a qualquer leitor. O que questiono, quando vejo esses discursos é:

Por que estão tentando nos apaziguar?

Quem tem medo de quem existe?

Quem tem medo de quem não nega o que quer e a própria percepção da realidade, para viver pelo que quer e não pelo que “deveria querer”?

Essas regrinhas invisíveis são tão perniciosas!

Te narro uma situação: você trabalha num fórum (ou num hospital). Você é um escrevente (ou um enfermeiro). E o juiz de sua vara (ou o médico) é daqueles que não dialoga com o cartório (ou a enfermaria). Portanto, ele entra no gabinete (ou na sua sala), com seus assistentes (ou quem seja), e escrevente (vou parar com o paralelismo) algum sequer sabe como é lá dentro.

A porta não está trancada.

Nada te impede de acidentalmente abri-la.

De espantado, dizer “ops!” e sair sem que nem lhe memorizem o rosto.

Sua capacidade de locomoção, se usada sem restrições mentais, te enfiaria em muitas salinhas.

Sem repercussões, e várias vezes sem necessidade de dissimulação.

Pela porta da frente, sem justificativas, com a feição de quem convencidamente tem o direito de estar lá.

Porque tem.

Porque se fez ter.

Porque sua energia se impôs, e os convenceu que tinha.

Isso não é hipótese.

Nesses últimos tempos tantas vezes não agi de modo que outrora me soaria “inagível”. À revelia de quando eu sentiria “empurrado” a fazer uma coisa, porque meu passado assim me inclinou, eu fiz outra, porque eu quis, porque eu pude. E isso é motivo o suficiente para brincar com a realidade. Surpreendentes os resultados.

(…)

Eu não busco o certo ou o errado nas vozes que me cercam, pois Deus existe.

Ele vive no meu coração.

Toda vez que oro, eu sinto Ele responder.

Me amo como Ele me fez e confio no julgamento que Ele me deu.

Tenho fé no futuro que Ele me mostra e o qual construirei, tijolo por tijolo, a Seu comando.

Sem garantias externas, com paciência, pelo que sinto, pelo que me move, pelo que sei que é bom.

Pelo que importa, e que independe de plateia, de incentivo ou de aplauso.

Porque eu posso, e eu irei, conquistar meu Paraíso.