Giovanni Brescancini Picchiotti

Expresso do Transcendente

Expresso do Transcendente

Estaria eu no metrô, voltando da faculdade/ do passeio/ / de qualquer outra experiência que, por indistinto motivo, fosse desagradável.

Seria da faculdade, nos dias que lá fui e em que me senti deslocado, como se lá não pertencesse.

Seria do passeio, nas instâncias em que este gênero, ao invés de me suprir, aumentou o meu vazio.

Seria .

Deveras, também poderia ser num bom dia: após um passeio divertido, após um dia de faculdade mais integrado, ou mesmo após . Afinal de contas, como dinheiro ou como sexo, para a satisfação existencial, apenas o excesso é suficiente.

Inclusive, para atiçar mais as coisas, é capaz de outrossim se imaginar esses eventos num dia em que de um encontro eu voltava, tido com uma mulher que eu amava, que bem me queria de volta, mas que ainda não era o meu Desejo a tomar forma tanto quanto eu gostaria.

Sua abstração expressada, começo a definir o cenário concreto:

Sempre que volto de metrô de algum lugar, necessariamente passo pelas linhas verde ou vermelha.

Ultimamente, nas poucas vezes que uso de referido meio de locomoção, tenho sido buscado de carro na estação Sacomã. Todavia, melhor cenário para esse exercício imaginativo envolveria também outro transporte público em sucessão ao metrô — a integração com o expresso Tiradentes, com a pertinente caminhada, seguida pela espera pelo ônibus que me deixa mais perto de casa — e mais algumas quadras pé. Dito movimento hoje não faz mais tanto sentido, porém, muito fazia quando eu ainda morava com minha mãe.

Começo aqui, ao tentar cercar o meu Desejo antes de concretamente adentrá-lo, a ter uma imagem clara dos entornos da minha fantasia. Muito embora ela seja universal em mim e possa, em tese, consumar-se em qualquer lugar e a qualquer hora, pensando em contá-la assim por escrito, neste ato, vislumbro uma situação mais específica.

Posso até dizer quando esse evento hipotético teria acontecido, na forma que cá será manifesta:

Em momento entre 2017 e 2019, quando eu ainda estudava na Universidade Anhembi Morumbi. Naquela época, pese nunca ter tido a mais exemplar assiduidade nas aulas, nestas eu ia em grande parte dos dias, pegando o caminho supra descrito para meu retorno.

Apesar do traslado diário ser algo de que me alegro ter livrado ao trabalhar ao lado de casa (e ainda que muito me angustie quando, por razão pontual, tenho que repetir referida travessia), verdadeiro é que certas experiências solitárias vestem-se de nostalgia quando do futuro vistas.

Aliás… sendo mais preciso… já à época — apesar da preguiça do percurso, de ver-me como uma sardinha enlatada na parte da ida — nada me desabonava perder-me em minha subjetividade no curso do metrô, especialmente quando este estava mais vazio, como no retorno da faculdade.

Ao contrário.

Recordo-me, deveras, de, com muito prazer, nesse trânsito descobrir músicas-temas tais quais a “Swamp Palace”, do Zelda: A Link Between Worlds, ou de com muita curiosidade pensar no Attack on Titan, na época em que este ainda parecia um conflito entre “humanidade” e “titãs”, com ressalvas aparentes, mas ainda não tão exploradas.

(…)

Contextualizo.

Dou um jeito de enfiar emoções atuais desconexas com a crônica posta.

Reitere-se o óbvio:

Todo estado de consciência é a consciência de um estado e o que cá redijo carrega tanto o passado como o presente no pincelar de suas imagens e na razão de suas palavras.

Contextualizo.

(…)

É a digressão. Passo a narrar.

Após uma aula como tantas outras, houvera eu me dirigido ao metrô. Tendo saído antes de meus colegas, como de costume, dirigi-me eu, sozinho, à estação Bresser Mooca. No percurso, passei pelos albergados acampados na rua, com o medo conjugado com a “indiferença” de sempre.

. Não poderíamos nos livrar desse legado maldito e de tantos outros, como a concentração da riqueza na mão de poucos — e, notadamente, dos que não são eu?

E então lá cheguei, na linha vermelha do metrô. Sempre lotada na ida, mas quase vazia na volta, ainda mais ante meu “customizado” horário de quem sempre sai mais cedo da faculdade.

Estava eu de pé, haja vista a meu desembarque, na Pedro II, preceder um único ponto intermediário. Nesta una parada, Ela entra no metrô e se dirige para a cadeira à esquerda do lado direito do trem.

(O assento mais próximo possível de mim. Próximo de mim o suficiente para que quem nele se sentasse, num trem com tantos assentos vagos, chamasse minha atenção, mesmo se não se tratasse de uma mulher bonita — e Ela o era.)

Experimento aqui a dificuldade de dar forma à versão mais abstrata do sonho mais em mim entranhado. Era Ela loira de cabelo acinzentado? Mas por que, se tantas cuja volição se imputou ao meu Desejo, como se o fossem posto, como Ele decidindo e por Ele respondendo possuiam cabelos escuros e pele oliva?

Sim, em E capital.

A Divindade que sobre mim rege.

Aliás, é de gênero feminino. “Ela”. Se digo “Ele”, é só para não incidir em insultante discordância nominal com o termo Desejo, tão consolidado pela psicanálise que não o posso descartar.

… Cabelo loiro acinzentado, à altura dos ombros. Um metro e cinquenta e oito centímetros de estatura. De semblante imanentemente familiar e tranquilizante.

Sentou-se Ela com a postura de uma bailarina.

Pequena, mignon, magra, ostentava pele lisa e macia, com traços delicados num rosto neótono, cujos olhos, grandes, castanhos e convidativos, eram complementados pelas sobrancelhas definidas e acordes com a harmonia de sua face.

(De mais a mais, continha Ela grande característica mais a ser oportunamente descrita — oportunamente, não agora, pese eu ser homem. Elevado como sou, não me disponho a tão cedo soar como um neandertal.)

Por breve, manteve-se ela quieta, a seguir lançando-me sutis olhares, tão acolhedores quanto estes poderiam ser.

Meu coração disparou.

Curto o trajeto, contudo, à minha estação de destino chegamos, abrindo-se a porta do trem, sem que eu tivesse o tempo de abordar a garota. Não obstante, sendo fácil eventual retorno e mais deslumbrante o mistério do que a rotina, decidi, como muito nessa vida já fiz, prorrogar a viagem, pela possibilidade de um novo destino.

Sem embargo de minha recém-tomada decisão, surpreendi-me, conforme, posto que não há muito se sentara, Ela levantou-se, aproximando-se da porta.

Ficou olhando para mim. Fiquei olhando para ela. A recém-aberta porta não se tardou a fechar.

Cerrada esta, ouço uma voz:

— Você não desce aqui?

Com instantes de reticência e em tom de estranheza respondi:

— Sim… — e logo complementei — Putz, terei que voltar.

— Não tem problema, eu volto com você.

Divina quanto sua apresentação fosse, ainda restava em mim alguma defesa armada, ante a hostilidade da cidade. Minha armadura foi causa de breve silêncio, embargado no tom mais doce por aquela tão íntima desconhecida:

— Está tudo bem, eu volto com você. — Arguiu ela, terminando a frase a morder os lábios, com um bobo sorriso no rosto.

Eu me derretia. Eu arrepiava. Acolhido em primazia, eu me libertava, e sincronizavam-se meus sentimentos e minha expressão exterior.

Finalmente, suspiros superavam a indiferença que dia a dia sou obrigado a carregar no rosto, e eu então via, em pleno grande mundo aberto, o mais isolado lar, no qual sou livre para ser eu mesmo. Melhor dizendo, mesmo em público, via-me eu acolhido em minhas cobertas — sozinho — na adolescência e na juventude ou — infante — a dormir agarrado com minha (ma)mãe.

Envolto num oceano, sendo pedra que flutua e brilha, tal qual estrela celeste que, conjunta com outra, infinita e eterna luz irradia. Era Eu e, afinal, era Tudo. Como se a existência finalmente houvesse começado, vencidas as correntes reais que me oprimem e condicionam.

Por imperecível instante, esqueci-me do “Grande Outro”, representado pelos poucos espectadores esparsos no restante do trem. Destarte, imerso no mágico momento e em sua graça, sorri de volta a Vossa Alteza. Ela me estendeu sua mão, e a reciprocidade fez suas vezes.

À conveniência que o enredo requer, o trem parou.

De mãos dadas — mais que isso, agarrando-nos um ao outro — saímos a buscar o caminho de volta, carregando em Nós a única beleza da cena, visto que, em nossa subjetividade, o desagradável interior da estação Sé do metrô se confundia com floresta misteriosa, dotada de sombras hostis e perigosas. Entretanto, como em boa fantasia, estas jamais corrompem o ambiente onírico em que se amam os protagonistas, que dão o tom a como a história se deve interpretar.

Desta maneira, mundo sujo que existisse, nosso era o brilho. Nossa era a importância, dispensável o resto.

Trazendo-me ao mundo concreto, no qual a necessidade por ações corta o fluxo de devaneios, meu Par então me inquiriu:

— O que nós vamos fazer?

— Voltar para casa, não? Aliás, onde você mora?

Ignorando por completo a segunda pergunta, como se esta não importasse, Ela prosseguiu:

— O que você vai fazer em casa? Se trancar no quarto, se forçar a tentar fazer aqueles cursos chatos, se cansar disso e jogar Zelda, se levantar, brincar com a Mimi, dar boa noite à sua família e então tentar dormir?

— Provavelmente. Mas como você sabe dessas coisas?

— Bom… pense em como você sempre sonhou em encontrar alguém que te entendesse, te amasse, te valorizasse como o príncipe que você é? .
. Então…  — Disse ela ocultando sua sincera face com as mãos e logo a reexibindo — Achou!

Eu sorri, envergonhado.

Bastante envergonhado.

Sem que em nada esta timidez reduzisse minha alegria, por breve momento quis, como um avestruz, enfiar minha cabeça num buraco no chão.

É engraçado…

Outrora, eu já havia comentado desejar para namoradas ou ficantes minhas. Por tal ato, nunca fui propriamente condenado, tendo tomado por retorno apenas feições de surpresa ou tentativas desajeitadas de encenar referido instinto. Nada obstante, vê-lo assim tomar forma, tão explícita e perfeita, suscitava um arrepio na barriga, cujo próprio reflexo seria de me esconder.

Contudo, rapidamente percebi que não seria isso necessário, já que a expressão Dela permanecia tão afável que nem a mais visceral nudez d’alma justificaria algum constrangimento.

Havíamos retornado ao Paraíso. À diferença de que o Deus de Abraão era substituído pela Deusa de minha completude.

À vista disto, confiantemente assumi meu papel, o qual melhor descrevo:

Nunca fantasiei propriamente sobre . Aliás, nunca devaneei sobre . Nada disso. Muito mais tive vagueios de poder, com a peculiaridade de que o Eu, Todo Poderoso, seria bastante sensível, precisando ser cuidado por quem o reconhecesse em sua preciosidade. Por consectário lógico, meu poder não iniciaria e nem acabaria em mim, sendo impostergável a necessidade de minha partícipe, a qual, finalmente…

— Achei! — Reagi eu, entre risadas.